Paripe.net

Fazenda Coutos é o bairro mais negro de Salvador

Imagem Responsiva
Imagem Responsiva


Fazenda Coutos é o bairro mais negro de Salvador
Foto: Reprodução

“Pode olhar, quem tem a pele clarinha é de fora!”. Parece extremista, mas se você olhar mesmo pelas ruas do bairro de Fazenda Coutos, vai ver que a feirante Maria Cremilda dos Santos, 32 anos, não está enganada. Encontrar a tal “pele clarinha” é difícil. “Tenha certeza de uma coisa: meu bairro é negro e eu também”, disse, orgulhosa. 


Fazenda Coutos não é o único bairro do Subúrbio Ferroviário em que o número de moradores que se declaram negros é alto. Logo em seguida, vem Rio Sena (90,30% da população preta ou parda), Moradas da Lagoa (90,12%), Lobato (89,62%)...


Orgulho e carência

 

Para quem nasceu ali, a verdade é uma só: os moradores têm mais orgulho de se definir como negros. “Algumas pessoas podem até não perceber, mas estão amadurecendo mais e entendendo quem são. A cultura negra ajuda, a música negra, como o rap e o samba, tudo ajuda... Muitas crianças daqui cresceram com a capoeira e isso tem passado de pai para filho”, comentou o pensionista Roberto Chagas, 37, que foi morar lá “ainda bebê”. 


Mas, apesar de tudo, a infraestrutura e os serviços públicos no bairro ainda ficam devendo... As queixas dos moradores vão desde a falta de áreas de lazer até a insegurança – ainda esta semana, duas escolas da rede municipal suspenderam as aulas, depois que traficantes rivais entraram em confronto.  “Fazenda Coutos é um bairro muito discriminado por conta da violência. Mas é um bairro em que a negritude está enraizada e, disso, temos orgulho”, disse o autônomo Alan Matos, 30. 


Bairros do Subúrbio são mais negros; ocupação começou em 1960


A ocupação dessa região, segundo a professora do curso de Urbanismo de Universidade do Estado da Bahia (Uneb) Liliane Mariano, começou na década de 1960, com o início da industrialização na cidade. “Houve uma migração muito grande do campo para a cidade. No início, a construção civil absorveu essa mão de obra. Depois, eles passaram a fazer atividades informais não qualificadas e começaram a ocupar o Subúrbio. Ali era uma área esquecida pelo poder público, que só na última década começou a olhar para lá. Tinha pouco valor para o mercado imobiliário, porque tem muitas encostas e é desqualificada para habitação. Por isso, o mercado imobiliário se interessou pela Orla Atlântica e pela região do Iguatemi”. 


“Infelizmente, a pobreza tem cor. E onde tem menos negro é onde tem uma economia mais elevada. Até o material que se usava nas obras dos bairros periféricos era diferente dos bairros nobres. Agora, estamos mudando isso”. Para a secretária, a consciência negra deve ser instituída desde os primeiros anos de escola. “Salvador é uma cidade com 79% de negros. Nós temos que ver esse colorido em toda parte”. Informações Correio24horas